O que o Cerrado tem a ver com a crise hídrica no Brasil?

O Cerrado Brasileiro funciona como uma grande caixa d’agua subterrânea para nosso país. Sua função é a infiltração de água no solo, o que só é possível devido a sua vegetação que possui raízes até 20x maiores abaixo da terra do que a parte da planta que vemos na superfície. A água infiltrada nessa região alimenta 6 dos 8 principais aquíferos nacionais e importantes bacias hidrográficas como as do Rio São Francisco, Paraná-Paraguai e Tocantins Araguaia responsável pelo abastecimento dos afluentes do Rio Amazonas.

Ciclo das Águas Fonte: Embrapa

Ciclo das Águas
Fonte: Embrapa

“A água do Cerrado não é importante só para a manutenção do bioma e para o desenvolvimento das atividades econômicas. É relevante também para todas essas regiões que estão abaixo, como a Caatinga, no caso da bacia do rio São Francisco, do Pantanal, da região da Mata Atlântica e para as populações que vivem na bacia do rio Paraná, que acabam recebendo essas águas. Energia elétrica, navegação, indústria, a própria população, que toma a água desses rios que têm suas nascentes no Cerrado: o bioma acaba sendo fundamental para tudo isso.” Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – Pesquisador em Hidrologia da Embrapa Cerrados.

No coração do cerrado, a Chapada dos Veadeiros abriga a APA (Area de Proteção Ambiental) do Pouso Alto. Uma APA é uma unidade de conservação destinada a proteger e conservar a qualidade ambiental e os sistemas naturais ali existentes para a melhoria da qualidade de vida da população local e para a proteção dos ecossistemas regionais. A APA do Pouso Alto se localiza no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Alto Paraíso de Goiás, Teresina de Goiás, Cavalcante, Colinas do Sul, São João d’Aliança e Nova Roma), abrangendo em sua grande parte uma região de cerrado de altitude, responsável pelo abastecimento das drenagens e a manutenção das principais bacias hidrográficas. Toda unidade de conservação como a APA do pouso Alto necessita um documento técnico que estabeleça o zoneamento e normas de uso da área que ela ocupa, assim como o manejo de seus recursos naturais; este documento é o Plano de Manejo. Portanto, o Plano de Manejo da APA de Pouso Alto tem como objetivo principal, estabelecer o zoneamento e normatização das áreas dentro da unidade de conservação, ou seja, disciplinar o uso definindo onde, quanto e como podem ser utilizadas as áreas, tendo sempre como foco o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental.

apa_pouso_alto area

Novo Plano de Manejo da APA do Pouso Alto

Dia 25/02/2015 será votado em Colinas do Sul um novo plano de Manejo para a APA do pouso alto proposto pela empresa CTE Engenharia, contratada pela SEMARH. Dentre as propostas do novo plano, encontram-se as seguintes situações:

Zoneamento ambiental

O Plano de Manejo sugere a divisão da região do Pouso Alto em duas zonas: Zona de Conservação e Uso Sustentável I e II. O zoneamento coloca em risco áreas de cerrado de altitude (região de alta recarga de água subterrânea, zonas com elevados índices de biodiversidade e espécies exclusivas do cerrado) e locais de grande beleza cênica (importantes atrativos turísticos), inclusive a área definida como patrimônio da humanidade pela UNESCO.

Pulverização aérea de agrotóxicos

O Plano de Manejo permite a pulverização de agrotóxicos por Avião em toda a zona II, sendo “respeitada a distância mínima de 500 metros das comunidades, povoados, perímetros urbanos e nascentes”. A distância é muito curta para garantir a segurança e a não contaminação de áreas de altíssima beleza e importância para o ecoturismo (ex. cachoeiras Almécegas I e II, Macaco, Macaquinho e Couros). Além disso, coloca em risco a biodiversidade e o endemismo do cerrado. Animais como a Codorna Buraqueira, Socó Boi Escuro, Tico Tico do Mato e das abelhas (responsáveis pela sustentabilidade da fauna e flora nativas) estão em risco de extinção por conta desse tipo de prática.

Hidroelétricas e mineração

Licencia a Mineração na Zona I à 100m da APP (Área de Proteção Permanente), de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) e Usinas Hidroelétricas (UHEs). Hidroelétricas e mineradoras não são adequados para uma APA, pois são empreendimentos que degradam e geram grande impacto socioambiental, principalmente em áreas consideradas de alta sensibilidade, como o Cerrado. Impactos já são observados com a redução da população de peixes, espécies como o Pato Mergulhão e o Socó Boi Escuro por causa de obras já realizadas na região.

Desmatamento

Licencia o desmatamento da vegetação nativa de áreas com até 350 hectares sem necessidade de Estudo e Relatório de Impacto Ambiental, inclusive na zona I (área de maior sensibilidade ecológica). Estão sendo ignoradas as demarcações de APP (Áreas de Preservação Permanente) e de áreas degradadas em recuperação. O Cerrado é um dos biomas mais antigos e complexos do mundo, com um tempo médio de regeneração de 500 anos; já em 2004 estimava-se que mais de 55% já haviam sido suprimidos, tendo como principal ameaça o avanço da fronteira agrícola (Machado et al., 2004).

Um comentário sobre “O que o Cerrado tem a ver com a crise hídrica no Brasil?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s