Quer Água? Salve as Nascentes do Cerrado

Hoje, enquanto os paulistanos discutem em cada elevador a crise hídrica sem precedentes na história, na pequena cidade de Colinas do Sul, no Cerrado Goiano, acontece uma reunião do Conselho sobre p plano de manejo da APA (área de proteção ambiental) do Pouso Alto, no cerrado Goiano. Sei bem que meus leitores nunca ouviram falar na cidade de Colinas do Sul; muitos só lembram do cerrado como um dos biomas “diferentes” lá nas remotas aulas de geografia e, talvez ainda mais grave e importante para suas vidas hoje – a maior parte dos leitores considera que algo chamado “Área de Proteção Ambiental” só pode ser bom e proteger o ambiente. Infelizmente, o buraco é bem mais embaixo. Vamos começar com a APA e destrinchar até o ponto de entenderem o que acontece, hoje, dia 25 de fevereiro, na pequena e pacata cidade de Colinas do Sul – GO.

Foto: Reprodução

Primeiro, APA é um conceito amplo. As APAs são divididas em “áreas de manejo” e regidas por planos de manejo. O que significa manejo? Mudança, transformação; uso. Muito bem, é preciso regulamentar o uso, parece óbvio. Vamos olhar para este conceito: regulamentar o uso, para fins de aproveitamento pelo homem, em termos de agricultura e geração de energia por meio de hidrelétricas; de áreas de cerrado, inclusive na Chapada dos Veadeiros. Eis que aí já começamos a ter um dilema bastante sério: a Chapada dos Veadeiros é considerada patrimônio natural da humanidade. O Brasil tem o dever de proteger este bioma. Inclusive porque o cerrado é um dos ambientes mais antigos do planeta Terra. Ele tem áreas estimadas em 2.5 bilhões de anos; e outras estimadas em cerca de 6 bilhões de anos. Naturalmente, qualquer parte do cerrado que seja “manejada” não vai mais ser o bioma que se desenvolveu ali por bilhões de anos. Se isso já não fosse absurdo suficiente; há outros detalhes. O cerrado é o ambiente de mais de 50 espécies ameaçadas de extinção. Eliminar espécies nativas ameaçadas de extinção é crime inafiançável no Brasil. Mas ao “manejar” o cerrado, adivinhe o que vai acontecer? A extinção de espécies; é claro. Até aí, embora esteja claro, talvez não pareça – ainda – grave o suficiente para os seres urbanos que dominam nossa espécie. Então vamos além: o bioma único do cerrado tem particularidades desenvolvidas nesses bilhões de anos – uma delas é que é uma região de plantas secas, que vivem com pouca água e poucos recursos no solo. O regime de chuvas é concentrado; chove por 4 meses e há 8 meses de seca. A vegetação, bem adaptada (por bilhões de anos) à falta de água por 8 meses; utiliza relativamente pouca água também nos meses quando ela é abundante. Isso permite que muita água siga para as profundezas do solo, reabastecendo aquíferos que por sua vez abastecem os rios que nascem no cerrado, especialmente na região próxima à chapada. E isso faz com que uma das principais bacias hidrográficas do Brasil nasça exatamente na chapada.

Por causa da crise de abastecimento em São Paulo; o país acordou para a interdependência existente entre os diversos ambientes do Brasil. Hoje é de conhecimento quase geral que o desmatamento da Amazônia (para extração de madeira e criação pecuária, principalmente) é responsável pela falta de água em São Paulo – algo que o cientista Antonio Nobre, do INPE de São José dos Campos vem avisando – sem ser ouvido devidamente – há cerca de 12 anos. Resumidamente, se a Amazônia desaparece, como consequência; o sudeste brasileiro se torna um deserto.

Pois bem, uma das maiores bacias hidrográficas do Brasil depende do cerrado. É o berço das águas do país. Se levou tanto tempo para prestarem atenção à questão do desmatamento da Amazônia (que aliás, cresceu tremendamente no último ano!); imagine o que acontecerá se o mesmo descaso for dedicado ao Cerrado? Uma das partes mais absurdas do plano de manejo é propor a criação de PCHs (hidrelétricas de pequeno porte). Ora, numa região de nascentes, PCHs simplesmente secariam os rios e as nascentes. É realmente incrível que uma ideia destas esteja no plano, e por isto, vale barrar a aprovação do mesmo. O Cerrado tem um dos maiores níveis de insolação do mundo. A solução energética solar responde hoje, na Alemanha (um país frio e sem sol..) por 36% da matriz energética nacional. Como alguém pode elaborar um plano com hidrelétricas onde a água é de nascentes e deixar de lado o sol que cobre o cerrado no mínimo 8 meses por ano?

Agora, voltemos à pacata Colinas do Sul, em Goiás. Lá, hoje mesmo, acontece uma reunião para discutir a APA e o manejo. E há um Conselho formado por muitos interessados na questão; um conselho que baliza e analisa as propostas. Os membros desse conselho são partes interessadas no problema. Há representantes de diversos municípios e do estado de Goiás; agricultores; e também os grandes do agronegócio no Brasil e no Mundo. Entre esses interessados, naturalmente, estão ambientalistas e a própria sociedade. Naturalmente, a sociedade deveria estar representada. Mas quem são os interessados com maior poder de fogo, dinheiro e influência política na formação dos conselhos? Infelizmente, em especial os grandes proprietários e grandes grupos multinacionais, muitas vezes ocultamente representados. Basicamente, na prática, quem está analisando o manejo são grupos de interesse particulares e inclinados a promover no cerrado a mesma devastação que vem acontecendo na Amazônia. Esses grupos, inclusive, defendem amplo uso de transgênicos e pesticidas. O que acontece se despejarem pesticidas no nascedouro de uma das maiores bacias hidrográficas do Brasil?

É, pois é. Isso não vai ser nada bonito. O que se pode fazer a respeito?

Lutar para modificar pontos essenciais como eliminar a idéias das hidrelétricas e ampliar as áreas de alta proteção do cerrado. E para isso, é importante que haja manifestação e milhões de assinaturas em documentos que peçam uma análise séria destes acontecimentos; para que as as aberrações propostas não se tornem legalizadas pelo “plano de manejo”. Porque milhões de assinaturas correspondem a milhões de eleitores; e sabemos que este é o único meio de fazer com que alguns dos envolvidos se importem. Para chegar a milhões de assinaturas, precisamos explicar tudo isso e fazer com que as pessoas entendam que o ambiente é algo que impacta diretamente – hoje – nas suas vidas. E embora seja fundamental impedir que o plano seja aprovado com as aberrações hidrelétricas, é importantíssimo que a sociedade saiba que precisamos que um plano melhor do que esse, e sem as aberrações, seja aprovado e tenha força de lei. Porque a APA do Pouso Alto foi criada (no papel) há 14 anos. E uma olhada nos mapas de preservação da região ao longo desses 14 anos deixa muito claro que não ter um plano de manejo; na prática, está apenas permitindo que a devastação seja cada vez maior.

É exatamente no sentido de apoiar todo esse trabalho de informação e participação da sociedade que este artigo foi escrito; e é isso que estão fazendo as duas pessoas cuja foto ilustra essa matéria. Um belíssimo trabalho para chamar a atenção do público para todo este problema que vem sendo subterraneamente executado e que, se implantado nos moldes propostos hoje, vai causar estragos irreversíveis no cerrado brasileiro. Ele é Marcus Saboya, o representante da sociedade civil de Alto Paraíso de Goiás, uma das cidades na Chapada dos Veadeiros. Alguém que tem se dedicado a explicar, debater e alertar de modo sistemático e organizado a sociedade civil local – esta figura tão pouco representada; mas que no fim; é efetivamente quem paga a conta; literalmente e em todos os sentidos possíveis, exatamente como está acontecendo no Estado de São Paulo hoje. Ela é Maria Paula, atriz e apresentadora de TV que acredita na importância do papel do “artista como ativista”; tem uma casa na Chapada e entende que pode, através da sua ONG Gota D’água (http://movimentogotadagua.com.br/), jogar luz e chamar a atenção desta mesma sociedade civil para questões serias e controversas como a Usina de Belo Monte e a cruzada para salvar o cerrado. Marcus e Maria Paula são as faces públicas e visíveis de um movimento que envolve muita gente; muito mais do que se poderia citar neste já tão longo artigo. Inclusive, para que essa informação chegue até as torres envidraçadas onde se toma muitas decisões sobre o campo estando tão longe dele: muitos dos envolvidos no movimento para salvar o cerrado são agricultores. Pequenos agricultores dedicados e conhecedores do valor do ambiente. Agricultores que acreditam no respeito à terra; na produção de alimentos verdadeiros e saudáveis; produtores de orgânicos que terão suas terras destruídas para a agricultura orgânica se os gigantes da agroindústria despejarem pesticidas nos campos circundantes. Estes agricultores, assim como os moradores e a sociedade civil vivem não somente “da terra”; mas também “na terra”. São os filhos destes homens e mulheres que herdarão o futuro do cerrado – e também o futuro do país. Bem diferente, talvez, dos filhos dos acionistas das multinacionais da agroindústria ou dos gigantes da pecuária. Estes, talvez assim creiam seus pais; estarão já vivendo no Planeta Marte quando a água por aqui houver acabado.

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Paulo Roberto Ramos Ferreira é Coach e Terapeuta Transpessoal; Membro da ONG Terapeutas Sem Fronteiras e Conselheiro do Nikola Tesla Institute e autor do livro O Mensageiro – O Despertar para um Novo Mundo. © 2015.

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